Sociedade Vinícola de Palmela abraçada pela Serra Mãe

A Sociedade Vinícola de Palmela nasceu em 1964. Nessa época, e até aos finais dos anos 80, a região era povoada por dois tipos de empresas: umas eram familiares, como a José Maria da Fonseca ou a Bacalhôa (então J.P. Vinhos), havia duas adegas cooperativas e muitos armazenistas, alguns deles com marcas próprias.

Na zona existiam também muitos produtores, alguns de grande dimensão, mas que pouco ou nada engarrafavam, vendiam a granel aos armazenistas. De seus nomes só ouvíamos falar quando saiam os resultados dos célebres concursos de vinhos na produção (vinhos da vindima mais recente), certames que eram promovidos pelo Instituto da Vinha e do Vinho.

É claro que, apesar das muitas medalhas que os vinhos recebiam então, a verdade é que esses vinhos acabavam nos lotes que os armazenistas faziam e dos produtores não ouvíamos falar mais. A situação mudou, e ainda bem, para melhor: hoje temos um número significativo de produtores com marca própria e os vinhos e quem os faz ganharam merecido destaque.

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A Sociedade Vinícola de Palmela (SVP) é assim um protagonista desta vaga, sobretudo desde que liderada por novos investidores, com destaque para Vasco Guerreiro, empresário há muito ligado à distribuição de vinhos, agora CEO da empresa, mantendo o núcleo duro constituído pela família de Filipe Cardoso (Quinta do Piloto), enólogo e proprietário de muitos hectares de vinhas na região, e Luís Simões, também ele ligado a família histórica de viticultores de Palmela, e agora director-geral adjunto da SVP.

A enologia está a cargo de José Caninhas, técnico residente, com o apoio de Filipe Cardoso. A empresa, com o manancial de vinhas e uvas que tem à disposição, tem todas as condições para aumentar as quantidades produzidas, assim o mercado corresponda em termos de solicitações.

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Foi isso mesmo que referi a Filipe Cardoso no final da apresentação: parabéns pelos vinhos e pela qualidade, o meu lamento pelas exíguas quantidades, atendendo aos 200ha de videiras que a empresa labora. Nessa área de vinha contam-se 30ha de uva branca, entre as quais 5ha de Arinto, a variedade com que é feito o Serra Mãe Reserva Branco. O nome do vinho é uma homenagem a Sebastião da Gama, escritor e poeta que “cantou” a serra, a terra onde viveu.

Para além da gama agora apresentada, a empresa colocou no mercado um branco de Fernão Pires a que chamou Botelharia, já aqui notado em anterior apresentação e que, sendo da colheita de 1999, estagiou muito anos em garrafa. Esta 1ª edição foi fruto de um quase acaso: “o vinho estava para lá esquecido”. Sobre uma possível próxima edição foi-nos dito que provavelmente em 2005 poderá haver e “de qualquer maneira agora estamos sempre a guardar vinhos para a hipótese de os lançar muito mais tarde”, revelou Filipe.

O branco Serra Mãe de 2021 já teve a denominação Arrábida, então uma das duas sub-regiões de Setúbal, sendo a outra Palmela. Nos tintos tiveram um Arrábida de 1995 a 97, mas depois passou tudo à denominação Palmela, o que se mantém até hoje. A primeira edição deste branco foi feita há 4 anos, sempre baseado na casta Arinto, muito apreciada nesta empresa. As vinhas mais velhas desta casta têm agora 70 a 80 anos, produzem pouco – 3 ton/ha – mas os vinhos têm muito carácter.

Já o Grande Reserva branco incorpora Fernão Pires, Arinto e Síria e é a primeira vez que está a ser produzido; teve estágio em barrica e está engarrafado desde Agosto. O tinto assenta, como manda a tradição da zona, em Castelão que, referem-nos, “confere muita elegância aos vinhos e é uma paixão das pessoas da casa.” Este tinto é um muito bom representante do Castelão das areias, de onde saem actualmente os melhores vinhos desta casta icónica. No caso do Grande Reserva tinto, o Cabernet Sauvignon que se juntou ao Castelão resulta especialmente bem e dá alegria ao vinho, pelo que me parece ser uma boa opção.

Que a empresa tenha Moscatel no portfólio é natural, tendo em conta o histórico da casa e da região. Mas as quantidades agora apresentadas são tão limitadas que vai ser difícil ao consumidor ter acesso a estes vinhos, ainda que a Sociedade Vinícola de Palmela afirme que na sua loja online os vinhos estão todos disponíveis. São vinhos de enorme carácter, muito aromáticos, com doçura bem evidente, como é habitual nos moscatéis velhos da região.

Durante a apresentação das novidades revisitámos o Botelharia branco 2009, feito com Fernão Pires e Arinto e que se encontra no mercado a um preço que ronda os €45. Continua de muito boa saúde, este tipo de vinho que já teve o seu tempo de oxidação tende, depois, a conservar-se anos e anos num patamar muito idêntico. É este o caso, espelhando a vitalidade e longevidade dos melhores brancos, tintos e Moscatéis desta região.

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